Deusa
poda

O POEMA
DEUSA P(h)ODA
por Mayara Millane
Eu adoro receber flores, adoro.
Pra mim não tem problema nenhum…
Sei que elas vão morrer.
Mas elas vão morrer mesmo se estiverem plantadas na terra.
Tudo um dia morre.
Eu me sinto assim como uma flor
Em algumas culturas a mulher é igualada a uma árvore,
Ou à qualquer planta, que tem raízes, que dá frutos.
Pois a mulher é símbolo da fertilidade, da reprodução.
Eu me sinto igualzinha as flores.
Eu gosto de receber flores.
Porque eu sou igual a elas.
Arrancam nossas raízes,
Nos colocam em vasos para enfeitar.
Aproveitam do nosso cheiro, da nossa cor, da nossa beleza.
E aí começam a podar.
Depois de arrancarem nossas raízes começam a podar.
E podam
A poda nesse caso, não permite o meu crescimento, não aumenta meu crescimento.
A poda nesse caso é por uma simples questão estética,
Ou para matar a planta.
Aí eu podo minhas unhas, meus cabelos, pelos, gestos, meu movimento, minhas palavras...
E aí eu vou podando...
Podando...
Podando...
Podando...
As Deusas, Sacerdotisas e Mulheres que já fomos,
Nos guiam e nos ajudam a renascer.
Mesmo depois de uma poda cruel e de arrancada as raízes, sobrevivemos.
Na metamorfose da lama,
Calibro minhas entranhas.
Meu sexo, ninguém poda.
Meu caminho, ninguém poda.
Meu olhar, ninguém poda.
Minha cor, ninguém apaga.
Minha dança, ninguém pára.
Eu tenho força e sei usar!
Tiro apenas o galho seco,
Podo a parte sem vida
Estéril
A que não pode mais dar frutos, nem flores.
Rego, acarinho o corte, ele sangra.
Lágrimas escorrem,
Um sangue etéreo míngua no extremo estreito da vida. Hídrica
Hidrata.
Somos mulher
Somos Deusas
Somos Phoda!